Um café, por favor!

Ainda era cedo, quando cheguei ao sítio do café. Um lugar simples, rodeado pelo verde, ar puro e a estrada ainda de chão batido. Era um domingo, e logo que amanhece algumas pessoas da região que tem cavalos, costumam cavalgar aos domingos. São passeios em família. Enquanto observo, seu Tatão, como é conhecido popularmente no bairro, cumprimenta os que passam. Em suas mãos a peneira para colher o café. Orgulhoso, ele mostra seus pés de café. Tive o prazer de fotografar o sítio e conhecer essa pessoa simples e sua família. Procurava um tema para meu trabalho de fotojornalismo da faculdade, e mal podia imaginar que ali tão próximo de minha casa havia essa família que vive do café, uma das últimas no município de Duque de Caxias.

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Logo que cheguei, seu Tatão fez questão de mostrar todo o processo de produção do café, até o processo final, que é a venda do produto nas feiras da região. Cada um da família participa um pouco do processo. Eles fazem parte do projeto de agricultura familiar, que vem sendo incentivado pelo município, ainda com muitas dificuldades, com pouco investimento para aumentar a produção, mas aos poucos vão ganhando espaço em feiras espalhadas pela região.

Seu café, totalmente artesanal, faz sucesso em Xerém, e não há quem não conheça o Tatão do café. Todo sábado pela manhã, lá está ele com sua banca, sempre oferecendo uma amostra para os que ainda não conhecem da sua arte. Seu tatão é umas dessas pessoas que dá gosto conhecer, que acredita no que faz e vai à luta com disposição todos os dias. Alguém que não deixou de acreditar e fazer aquilo que ama fazer, mesmo com toda dificuldade. E agora é assim: Todo sábado eu compro meu cafezinho na feira.

O café é tão grave, tão exclusivista, tão definitivo
que não admite acompanhamento sólido. Mas eu o driblo,
saboreando, junto com ele, o cheiro das torradas-na-manteiga
que alguém pediu na mesa próxima.

Mario Quintana

Do esquecimento

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Mais uma vez eu volto o meu olhar para este lugar, que tanto me assusta, me revolta e  me comove. Atenção senhores passageiros, destino final: Central do Brasil. Em mais uma de minhas voltas para casa, aguardo meu ônibus, quando reparo a cena. Aparentemente uma cena comum nesse lugar, não choca mais.

Mas de repente comecei a olhar mais atentamente, e percebi como estamos todos nós anestesiados, passando de um lado para o outro como zumbis. A questão, não é julgar como essa pessoa foi parar ali, mas como a sociedade num todo lida com essa situação. Políticas sociais escassas, que não reintegram essas pessoas na nossa sociedade, e cada vez mais vivemos em um país mais desigual.

A cada dia caminhamos mais para esse abismo social. A cidade transformou-se, sem dúvida está mais cosmopolita, com seus boulevards, museu interativo, bonde elétrico. Mas a que custo?  Pra quem? A conta chegou pra gente pagar, e ela é bem amarga.

Esse exato pedaço da Central onde foi feita a foto não existe mais, virou um canteiro de obras do VLT inacabável. Essa iluminação também não existe mais, até que se conclua a obra, e nem temos a mínima ideia de quando será, estamos no escuro, assim como o Estado do Rio de Janeiro está, enfrentando talvez uma de suas piores crises. Apreensivos com a volta pra casa, com a violência crescente em todo o Estado, o que nos deixa cada vez mais anestesiados ao sofrimento alheio. Já presenciei muitas cenas tocantes nesse lugar, nem todas tenho condições de registrar.

E na data de hoje, foi votada a PEC-55 limitando os gastos públicos, que passa a valer em 2017, limitando gastos em saúde, educação entre outros. O que esperar do próximo ano, com medidas tão severas e de grande impacto nos mais pobres? São tempos sombrios e duros demais para os sonhadores.

Estação Walking Dead

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A Central do Brasil, já foi palco de vários acontecimentos nessa cidade: manifestações, desfiles, encontros, desencontros e até filmes. Mas é no dia a dia que vejo ali, durante o vai e vem enlouquecido da multidão, vários personagens e suas histórias.

Sua arquitetura em Arte Decó, o prédio construído em 1858 é um símbolo imponente na região central da cidade, seu relógio pode ser visto de vários ângulos da cidade. A atmosfera do lugar me chama muito atenção. Um dia voltando da faculdade com dois amigos, um deles disse: “Nossa, a Central é muito ‘The Walking Dead’ (famoso seriado americano para quem não conhece).” Fiquei com isso na cabeça, refletindo. Realmente se paramos para pensar, é um pouco disso mesmo: pessoas andando de um lado para o outro , sempre com pressa, aparência cansada, como se nem percebessem a presença alheia.

A Central do Brasil me assusta, mas ao mesmo tempo desperta a minha curiosidade.  Às vezes vejo cenas interessantes e intrigantes, nem sempre tão agradáveis, mas que me fazem refletir e me desperta empatia. Em suma: vejo poesia no meio daquele caos.  Assim como vários bairros da cidade, a região está abandonada, e com as obras do VLT (veículo leve sobre trilhos) a paisagem tornou-se ainda mais erma, pois alguns acessos encontram-se fechados e sem iluminação.  Assim como a Praça Mauá foi revitalizada, acredito que o mesmo deveria ser feito nesta região. A própria estação Central do Brasil é linda, me recordo de passar ali ainda criança e achar tudo muito vasto e bonito.

A fotografia acima foi feita durante os jogos olímpicos sediados na cidade, talvez esse dia tenha sido o único dia em que me senti segura para fazer essa foto, do jeito que sempre quis, sem pressa, sem medo. A guarda nacional estava ali em peso. Hoje, sem a previsão de outro evento de grande porte,  dificilmente chegaremos perto do que foi andar por aquela cidade segura, pela Central do Brasil naqueles dias. O dia a dia fora dos holofotes daquele período é bem diferente.

12068968_1066742583399582_6152983579573884723_oTodas fotografias por Bia Suazo

Lapa da luz

cropped-img_20151002_1600361.jpgHá tempos tenho pensado em criar um blog, mas sempre ficava em dúvida sobre o que eu deveria escrever, porém sabia que deveria ser sobre algo que me agradasse e que não teria tanta dificuldade em fazer. Decidi falar sobre fotografia.

Contar a história por trás de cada fotografia que faço pela cidade, geralmente durante o trajeto de ida a faculdade, trabalho, enfim quando acontece um momento em que eu sinto que vale a pena capturar aquele momento. Grande parte dessas fotografias são feitas com celular, por conta da mobilidade, já que é mais complicado andar por aí com uma câmera nas mãos. A cidade me encanta, o centro da cidade do Rio de janeiro me encanta, mesmo com todas as suas mazelas, não deixo de me encantar com a arquitetura, a paisagem, a atmosfera e com as pessoas, se observarmos com cuidado sempre vamos encontrar personagens pra lá de interessantes.

A foto acima, a escolhida como primeira para o blog, fiz assim. Estava voltando de um compromisso no Centro da cidade e resolvi passar pela Lapa, quando, de repente olhei e vi um quadro. Era tudo tão harmonioso, o brilho do sol na calçada, nos arcos, os pombos, as pessoas passando com pressa, sem chance de perceber o quanto a cidade pode parecer tranquila às vezes. O bonde desfilando lindo e ao fundo a Catedral. Não pensei duas vezes e fiz a foto. Pra quem mora no Rio de Janeiro, ou em qualquer outra grande cidade sabe como é arriscado fazer isso, mas na maioria das vezes a vontade de fazer o registro é maior do que o medo, e quando não faço me sinto frustrada.

Tenho muitas fotografias feitas assim, e todas elas têm uma história e um significado pra mim, quero aqui compartilhar com os amantes de fotografias e crônicas um pouco de minhas aventuras pela cidade maravilhosa. Até a próxima.